sexta-feira, outubro 12, 2007

Pintado a Jasmim


O poema é o desenho desta letra
inclinada pelo rumor do vento
quando lhe peço abrigo
e vejo nele o espelho do meu corpo
repousando nos teus braços de ontem.

A tinta ainda não acabou de secar.
O cheiro fresco da página vira-se para a página seguinte
e a minha voz ouve-se melhor ao vento
quando conspiramos no silêncio
a próxima letra
e a exactidão do seu desenho.

Agora há mimosas nas árvores
e lá em baixo o rio já não é como era
nem saberia sê-lo.
Esqueci como se bebe a água pela mão
ou como se bebe a mão
do rio.

Eu existia nessa transparência
na flor espiritual e líquida
da tinta
que retoca no papel a sua vida.
Esta letra é o meu nome soletrado por ti,
o meu nome que ainda não está seco
e te olha nas acácias florindo em amarelo
no rigor do inverno.

Qualquer palavra tua me desenha
e assim começa qualquer coisa
que me estava destinada desde sempre.



Rosa Alice Branco in “Flor de Tinta”
Imagem: Pintura de Enrique de Santiago


Canela

4 comentários:

Angela disse...

"...Esqueci como se bebe a água pela mão..."

Sabes que descobri que os meus catraios não sabiam que se pode beber a água pela mão? No verão passamos por uma nascente de água na serra e eles acharam que tinhamos de ir ao carro buscar uma garrafa para encher d'água. Quando eu disse que não era preciso, que podiamos beber pela mão, eles ficaram espantados a olhar para mim!
É em momentos como este que me apercebo do quão afastados vivemos da natureza.

Canela disse...

Não existem fontes na Lapónia?!
Sabe tão bem beber água pela mão!
sabe tão bem beber água com a boca aberta directamente para a fonte!
Sabe tão bem no verão ficar toda molhada ao beber água directamente da fonte!
Mas, julgo que aprendi a beber pela mão pelas mãos dos meus pais.
É tão bom!

celeste disse...

Provavelmente há nascentes de água na Lapónia (nas montanhas do norte da Suécia). Infelizmente nunca consegui convencer (tu sabes quem) a fazer caminhadas pelas montanhas, e nos campos de golf não há nascentes de água...

Canela disse...

Tenta ver a situação pelo lado positivo – agora já não precisas de convencer ninguém!
Quando, hoje, me deram duzentos E. para a mão, fiquei incompreensivelmente calma e pensei de imediato – afinal só me estraga o descanso que preciso e algum trabalho que tinha programado para o fim-de-semana, mas todo o trabalho que tinha programado para durante a semana está salvaguardado e sai a sorrir.