segunda-feira, maio 14, 2007

Naufrágio


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.




Cecília Meireles in “Canção”


Fotografia de José Marafona ("A Barca da Tristeza..."), retirada do sítio "1000 imagens"


Canela

2 comentários:

Anónimo disse...

Quebra-se sempre qualquer coisa... quando chega ao fim!
Piro

Canela disse...

Quebra-se o sonho! Mas volta-se sempre a sonhar!
Olá! Que bom rever-te!

Beijocas