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sábado, janeiro 10, 2009

Portugal of the Portuguese



Um pequeno deleite. Ler aqui.



Canela

segunda-feira, novembro 03, 2008

Paixões




A botânica sempre foi, e deduzo que será, uma das minhas paixões. Não nascera eu para ser o que sou, e era à botânica que dedicava o meu precioso tempo. «Dedicava» é, neste contexto, um termo inapropriado, uma vez que, em tempos idos fiz um herbário e “obrigava” (ok! tirem as aspas) os meus pais a irem comigo colher plantas, a identificarem-nas e a secarem-nas, para posteriormente eu as catalogar e colar nas preciosas folhas do meu herbário.
Os meus pais aprenderam imenso, o «imenso» pertence-lhes. Eu bendigo a sorte por não ter quem me faça o mesmo.
Volta e meia lá dou comigo a abrir as folhas do meu precioso herbário, para lhe sentir o meigo aroma do chá.
Ora, é certo e sabido que quando tenho mais trabalho me dedico a tudo menos ao que tenho, imperiosamente, que fazer, por esta simples razão voltei à botânica.
E, então não é que encontro o Species Plantarum de Carl Linnaeus de 1753. Num site que me tem consumido todo os resquícios de tempo livre (se é que posso chamar livre ao tempo de pausa entre escrita).
Se gostarem de botânica (e já agora de latim), nem que seja um bocadinho, vão adorar. Sigam o meu conselho e espreitam, vá lá.


Imagem retirada daqui.

Canela

terça-feira, outubro 21, 2008

Leituras

Lê Hegel com o mesmo à-vontade com que os outros lêem "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel, esquecendo-se que a totalidade nem sempre é absoluta, e que o absoluto é constituído de pequenos totais.


Canela

sábado, setembro 27, 2008

Outra…


inusitada estória-de-amor, um tudo ou nada parecida com a que me ofereceram.


Imagens de autor desconhecido, enviadas por correio electrónico.


Canela

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A Pequenez

«O «pequeno» representa o tamanho perfeito, adequado ao seu investimento afectivo. Alvo electivo da sua ternura, tamanho-fétiche que apela ao seu carinho irreprimível, o pequeno contém em si as potencialidades de expressão que dele naturalmente decorrem e que depois se transferem para todos os adjectivos e nomes próprios: pequenino, pequenito, pequerrucho, etc. Como se o «pequeno» fosse a raiz dos diminutivos afectivos, a essência que percorre o conjunto inteiro das nuances dos «inhos» e «itos» declinando as inúmeras espécies da pequenez.
O português revê-se no pequeno, vive no pequeno, abriga-se e reconhece-se no pequeno: pequenos prazeres, pequenos amores, pequenas viagens, pequenas ideias («pistas»… que se abrem aos milhares a cada pequeno ensaio).»



José Gil in “Portugal Hoje O Medo de Existir”


Canela

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

A página certa

«A estrada versus uma vida sedentária. Nunca pensava muito nisso até ter feito cinquenta anos. Foi então que conheci uma mulher pela qual teria largado tudo, até mesmo a estrada. Mas entre nós dois interpunham-se alguns obstáculos, e aquela era a minha única oportunidade. Depois, voltei para a estrada carregado com as minhas máquinas fotográficas. Nestes últimos anos desisti de viajar, mas continuo sozinho. Todos os anos que passei na estrada (para além da minha natureza solitária, e suponho que um pouco anti-social) não me prepararam para me aproximar dos outros. A mulher, essa mulher – foi a minha única oportunidade para atingir aquilo de que falo, e no entanto com ela nunca houve oportunidade alguma, agora que penso nisso com mais atenção. Assim, durante todos os anos em que tu lias de noite à luz de uma lâmpada amarela e te interrogavas sobre os lugares mais longínquos do globo, talvez com vontade de visitar todos esses sítios em que estive dúzias de vezes, durante todos esses anos eu passava diante da tua janela e desejava exactamente o contrário. Desejava a tua cadeira e a tua lâmpada, a tua família e os teus amigos. Provavelmente chovia na noite em que passei diante da tua casa, com o meu equipamento no assento ao lado do condutor, em busca de um motel que não me pesasse duramente nas finanças. Devo ter encontrado algum; dormi e prossegui a minha caminhada no dia seguinte, sem me esquecer da tua lâmpada amarela de noite.»


Robert L. Kincaid in “O Preço de Partir”


Preços associados a opções de vida.


Canela

terça-feira, dezembro 18, 2007

Something in your words…

Dos Livros de Infância que guardo religiosamente
«João mata-sete»



Pouco depois, passou perto de um bosque, encontrou uma jovem de longos cabelos negros, nos quais havia enfiado uma margarida, e que estava colhendo flores.
- Bom dia, senhorita. Qual é o melhor caminho para se atravessar o bosque?
A moça não quis acreditar no que ouvia. Arregalou seus belos olhos negros, endireitou o chapelão de palha e disse:
- Atravessar o bosque? Não faça isso! Então não sabe que neste bosque vive o gigante malvado?
João empertigou-se, assumiu um ar de superioridade e, com um sorriso, falou:
- Gigante malvado? Ora, não tenho medo. Já matei sete, de um só golpe.
A moça pegou o ramalhete que havia acabado de colher e olhou com profunda admiração para João, dizendo:
- Sete? Oh… nesse caso, o melhor caminho é aquele, da direita.

Um homem que mata sete, de um só golpe, não pode ter medo.

Mas… resta saber se a princesa quer casar comigo. Todos os olhos se voltaram para a linda jovem de cabelos cor de ouro que, cantando, respondeu docemente:



Eu não digo que sim
eu não digo que não
eu preciso saber
se você vai poder
cumprir a missão.

Eu não digo que sim
eu não digo que não
se você for valente
e lutar bravamente
eu serei sua, então.



A never ending story…
onde cada um escolhe o final que quer, para uma estória com um final feliz.

Canela


terça-feira, novembro 27, 2007

A galhofa à hora de almoço

A propósito de uma notícia publicada no Jornal de Notícias de Sábado, um amigo deu o mote ao tema: vocês leram o JN de Sábado acerca do livro «A medicina na voz do povo», publicado pela Bayer e escrito pelo otorrinolaringologista do Porto – Carlos Barreira da Costa. Não!
Então ouçam, e digam lá se já não ouviram algo semelhante, ou pior! E foi dando exemplos:
"A minha expectoração é limpa, assim branquinha, parece com sua licença espermatozóides"
"Tenho a língua cheia de Áfricas".
"Há dias fiz um exame ao capacete no Hospital de S. João".
"Ou caiu da burra ou foi um ataque cardeal".
"Venho aqui mostrar a parreca".
"A minha pardalona está a mudar de cor".
"Tenho esta comichão na perseguida porque o meu marido tem uma infecção na ponta da natureza".
"Quantos filhos teve?" - pergunta o médico. "Para a retrete foram quatro, senhor doutor, e à pia baptismal levei três".
"Tenho de ser operado ao stick. Já fui operado aos estículos".
"Metade das minhas doenças é desfalsificação dos ossos e intendência para a tensão alta".
"O meu reumatismo é climático".
"É uma dor insepulcrável".
"Não era ébrio nato mas abusava um pouco do álcool"
"Fujo dos antibióticos por causa do estômago. Prefiro remédios caseiros, a aguardente queimada faz-me muito bem".
"Eu sou um fumador invertebrado".
"Fui operado ao panquecas".
"O meu marido está internado porque sangra pela via da frente e pinga pela via de trás".
"Fiz uma mamografia ao intestino".
"Ando a tomar o Esperma Canulado"- Espasmo Canulase
"Tomei Sexovir" - Isovir
"Quando eu estou mal, os senhores são Deus, mas se me vejo de saúde acho-vos uns estapores".
"Gosto do Senhor Doutor! Diz logo o que tem a dizer, não anda a engasular ninguém".
Mais exemplos aqui.
Claro que nós temos muitos outros exemplos, mas são inenarráveis neste “blog”, entre cada um deles gargalhávamos até mais não, e desnecessário será dizer que o trabalho à tarde correu às mil maravilhas. Haja boa disposição e bem-haja a quem nos dispõe tão bem!



Canela

domingo, novembro 04, 2007

O filme…

… de Francis Ford Coppola – Youth Without Youth – foi adaptado para o cinema a partir do livro, com o mesmo nome, do romancista, ensaísta, filósofo e historiador romeno Mircea Eliade.

As obras que permanecerão para além do tempo.


Canela

quinta-feira, outubro 11, 2007

À procura da Fonte de Tempo

- Bom dia, disse o principezinho.
- Bom dia, disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas aperfeiçoadas que acalmam a sede. Toma-se uma por semana e deixa-se de sentir qualquer necessidade de beber.
- Por que é que vendes isso? disse o principezinho.
- É uma grande economia de tempo, disse o mercador. Os peritos fizeram as contas. Poupam cinquenta e três minutos por semana.
- E o que é que se faz com esses cinquenta e três minutos?
- Faz-se aquilo que se quer…
«Eu, disse para si mesmo o principezinho, se tivesse cinquenta e três minutos para gastar caminharia muito lentamente para uma fonte…»


Antoine de Saint-Exupéry in “O Principezinho”

Canela

segunda-feira, setembro 03, 2007

“The Secret”


The message behind “The Secret” is: You are responsible for your life.
This is the key to happiness.
Be happy and enjoy the life.


Canela

quinta-feira, abril 19, 2007

A tentar,...

... que assim seja.


Kahlil Gibran in "The Thinker", imagem retirada daqui


(...)
«O professor que caminha na sombra do templo, entre os seus discípulos, não dá a sua sabedoria mas antes a sua fé e amor.

Se for realmente sábio, não vos convida a entrar na casa da sua sabedoria, mas antes vos conduz ao limiar do vosso próprio espírito.»



Khalil Gibran in “O Profeta”



Canela

quarta-feira, abril 18, 2007

Chocólatra Selectiva

Bombons da Confeitaria Arcádia do Porto
Imagem retirada daqui e parte da história aqui

Adoro chocolate, mas, sou selectivamente chocólatra, ou seja, não gosto de todo o tipo de chocolate. Detesto, o chamado, chocolate branco. Detesto chocolate com avelãs. Não gosto, particularmente, de “praliné”. Resumindo, gosto muito pouco de misturas, mas adoro, determinadas, combinações. E, sem dúvida uma das combinações que adoro, pelas múltiplas sensações que provoca nas minhas papilas gustativas, é a de chocolate negro recheado com um estimulante licor e uma deliciosa cereja. A combinação que se adora ou se detesta, sem nenhum outro tipo de cambiante pelo meio.
Assim sendo, a propósito de um livro que me ofereceram sobre chocolate, saboreiem:

«Aromas e Perfumes»
«Mas a maior emoção táctil sente-se acariciando lentamente com os lábios um fragmento de chocolate de modo a sentir-lhe e avaliar-lhe a consistência, a temperatura e a macieza, mas também começar a sentir-se envolvido pelos quatrocentos aromas que o cacau contém.»

«A Degustação»
«Chegados a este ponto, depois de ter acordado e excitado todos os sentidos, o chocolate pode ser finalmente introduzido na boca. O chocolate deve ser partido delicadamente com os dentes de modo a pressentir mais uma vez o agradável crocante e, em seguida, deve deixar-se desfazer docemente entre a língua e o palato de modo que possa atingir rapidamente a temperatura do corpo e ficar primeiro macio, depois cremoso e por fim líquido, seduzindo assim cada recesso do céu da boca. Quando o chocolate atinge o estado líquido é importante, ajudando com a língua, distribuí-lo por todo o palato de modo a envolver e impregnar cuidadosamente as papilas gustativas…»

Mario Busso in “O Chocolate”

Resta-me acrescentar que saborear chocolate, nunca mais será o mesmo!


Canela

terça-feira, abril 17, 2007

No Louco 975

Como sabemos que apanhamos o 975 correcto?!
Segundo o condutor, sempre que constatarmos que o motorista é louco!



«- Então? – disse Amadis.
- Então, como ele, nunca sabe onde as coisas irão parar. Geralmente nunca vem ninguém neste autocarro. Ora vamos lá a saber, como é que subiu?
- Como toda a gente – respondeu Amadis.
- Com este motorista – prosseguiu o homem – é aborrecido, porque não se lhe pode dizer nada, não compreende. Temos que reconhecer que ainda por cima é idiota.
- Lamento-o – disse Amadis. – É uma catástrofe.
- Pois é – disse o cobrador. – Um homem que podia estar a pescar à linha, e veja-se o que ele faz…
- Conduz um autocarro – verificou Amadis.
- Aí está! – retorquiu o cobrador. – O senhor também não é parvo nenhum!
- O que é que o pôs assim doido?
- Não sei. A mim calham-me sempre condutores doidos. Acha que isto tem alguma graça?
- Não, caramba!
- É da Companhia – disse o condutor. – Aliás na Companhia são todos doidos.
- O senhor lá se vai aguentando – disse Amadis.
-Oh! Comigo é diferente – explicou o condutor. – Percebe, eu não sou doido!...
Riu tanto e tão alto que ficou sem respiração. Amadis sentiu-se um bocado inquieto quando o viu rolar-se pelo chão, fazer-se roxo, depois branco e inteiriçar-se, mas logo sossegou quando percebeu que era a fingir: o outro piscava o olho revirado, o que era bastante bonito. Ao fim de alguns minutos, o condutor levantou-se.
- Sou um brincalhão – disse.
- Não me admira – respondeu Amadis.
- Há quem ande sempre triste, mas eu não. Se não fosse isso, ia lá ficar com um tipo como esse motorista!...»


Boris Vian in "O Outono em Pequim"
Fotografia de José Eduardo ("Pensando bem, não é tão longe..."), retirada do sítio "1000 imagens"


E agora, digam-me que não reconhecem esta estória em inúmeras situações… da vida!


Canela

quarta-feira, março 28, 2007

No Templo da Deusa


...
«Observa aqueles cisnes, em número de duas vezes seis, contentes por voarem em coluna: a ave de Júpiter, despenhando-se do alto éter, dispersava-os no vasto céu; agora, alinhados numa longa fila, eles parecem descer sobre a terra ou comtemplar de cima o sítio que vão escolher. Do mesmo modo que estas aves agrupadas folgam batendo as asas e escondem o céu que fazem ressoar com os seus cantos, assim as tuas naus e os teus jovens guerreiros ou estão já no porto ou nele entram a todo o pano. Despacha-te, pois, e segue o caminho que te conduz.»
Ela disse, e, virando a cabeça, fez brilhar o seu pescoço róseo; os seus cabelos perfumados de ambrósia exalaram um odor divino; as pregas do seu vestido baixaram até aos pés, e o seu andar revelou uma verdadeira deusa.
Tendo reconhecido sua mãe, ele perseguiu-a, fugídia, com estas palavras: «Por que razão também tu, cruel, logras tão amiúde o teu filho mediante imagens enganadoras? Porque me não é permitido pôr a minha mão na tua, ouvir-te falar-me e responder-te sem fingimentos?» Enquanto lhe faz estas censuras, ele dirige os seus passos para as muralhas. Vénus, durante a marcha deles, obscurece o ar à sua volta, e envolve-os num véu nebuloso, para que ninguém possa vê-los, tocar-lhes, suscitar-lhes algum atraso ou perguntar-lhes os motivos da sua vinda. Ela mesma, elevando-se nos ares, afasta-se na direcção de Pafo, e deleita-se a rever essa moradia querida onde, no templo que lhe é consagrado, o incenso de Sabá arde sobre cem altares perfumados por frescas grinaldas.»

Publicus Vergilius Maro in "A Eneida"

Fotografia de Vítor Maia ("O Sol dos Flamingos"), retirada do sítio "1000 imagens"

Canela

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Reflexos


Ajoelhada em frente do espelho, junto da cama, olhou para fora e observou de novo que já era dia e que ia voltar para casa.
Shimamura lançou um olhar à jovem, mas, num gesto brusco, deixou cair a cabeça sobre a almofada: toda aquela brancura existente na profundidade do espelho era a neve, e, no meio dela, ardia o rosto vermelho da mulher. A beleza desse contraste era de uma pureza inefável, de uma intensidade quase insustentável, de tal modo excitante e expressiva.
Shimamura perguntou a si próprio se o Sol teria já nascido, pois a neve tomara de súbito um esplendor ainda mais brilhante no espelho: dir-se-ia um incêndio no gelo. O próprio negro dos cabelos da jovem, em contraluz, parecia menos profundo, secretamente habitado por um jogo de sombras de tom avermehado.


Yasunari Kawabata in “Terra de Neve”
Fotografia de Kunstfotografie ("La tentation vermeille")


Canela

domingo, fevereiro 11, 2007

Desmistificar

...
- Mas o que é que se há-de fazer para os interessar de novo por qualquer coisa? – disse Lil.
- Eu faço o melhor que sei – disse Folavril. Você também.
Somos bonitas, tentamos deixá-los livres, tentamos ser tão burras quanto o necessário pois é necessário que uma mulher seja burra – é da tradição – e isso é difícil como tudo, abandonamos-lhes os nossos corpos e tomamos-lhes os deles; pelo menos somos honestas e eles vão-se embora porque têm medo.
- E nem sequer é de nós que têm medo – disse Lil.
- Isso seria bom de mais – disse Folavril. – Até o medo que sentem, é preciso que venha deles.

- Porque é que nós resistimos melhor? – perguntou Lil.
- Porque temos um preconceito contra nós próprias – disse Folavril – e isso dá a cada uma de nós a força de um todo. E eles acham que somos complicadas devido a sermos esse todo. É aquilo que eu dizia.
- Então, eles são burros – disse Lil.
- Não os generalize a eles também – disse Folavril. – Isso torná-los-á igualmente complicados. E nem todos o merecem. Nunca se deve pensar «os homens». Deve pensar-se «Lazúli» ou «Wolf». Eles sim, pensam sempre «as mulheres» e é isso que os perde.
- Onde é que foi pescar tudo isso? – perguntou Lil, atónita.
- Não sei – disse Folavril. – Ouço-os. De resto, o que tenho estado a dizer deve ser idiota.
- Pode ser – disse Lil -, mas em todo caso é claro.

Boris Vian in "Erva Vermelha"

Canela

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Diluições

… A luz aflorava qualquer coisa verde no canto da janela, qualquer coisa que se transformava numa esmeralda, numa gruta de puro verde, um fruto sem sementes.
… À medida que a luz aumentava, abria-se aqui e ali um botão, soltando flores cheias de pequenas veias verdes ainda palpitantes, como se o esforço do desabrochar as tivesse transtornado. Ao baterem nas paredes brancas as suas frágeis corolas faziam um vago carrilhão. Tudo se fundia e perdia docemente a sua forma. Dir-se-ia que o prato de porcelana se diluía e a faca de aço se tornava líquida. E durante todo esse tempo, as ondas desfaziam-se nos rochedos, numa vibração surda, como troncos de árvores tombando na areia.

Virginia Woolf in "As Ondas"
Fotografia de autor desconhecido

Canela

terça-feira, dezembro 12, 2006

O Arranca Corações*


-Então – disse ele. – tudo isso é medo?
Arrependeu-se logo dessa grosseria, mas não tardou a achar uma desculpa para as suas palavras, ao pensar que isso não poderia chocar uma pessoa que já de si era grosseira.
-Senta-te… - propôs-lhe ele. – Acolá… em cima da cama.
-Não me atrevo… - disse ela.
-Ora vamos lá – disse Jaimemorto. – Não sejas tímida comigo. Estende-te aí e põe-te à vontade.
-Tenho que me despir? – perguntou ela.
-Faz como entenderes – disse Jaimemorto. – Se te apetece, despe-te, se não, não te dispas. Põe-te à vontade… É tudo quanto te peço.


*Boris Vian in “L’arrache-coeur”
Canela