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segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O Criativo


Mais um dos magníficos trabalhos do meu afilhado Migas, ou o que me ajuda a caminhar.


Canela

domingo, outubro 19, 2008

Iceland

Believing in a fast economic revitalization





The cold makes me
a lair from fear
places a pillow of
downy drift
under my head
a blanket of snow
to swaddle me in

I’d lay my ear to
the cracking of the ice
in the hope of hearing it
retreat
if I didn’t know
I’d be frozen fast

The ice lets no one go

My country
a spread deathbed
my initials stitched
on the icy linen



Gerður Kristný in “Pratriotic Poem”
Pintura de Freyja Önundardóttir ("Fjarlægð"), retirada daqui.


Canela

sábado, outubro 11, 2008

sábado, setembro 20, 2008

A que distância da escrita deixas o coração?


Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

a altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um «não esquecer» fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»




José Tolentino Mendonça in “A Presença Mais Pura”
Pintura de Duma (“Sabes… acho que concordo contigo!”), retirada daqui.


Canela

quinta-feira, agosto 21, 2008

Os mistérios do Sono


sobre a cama as metáforas
parecem-se mais belas e
mais sublimes

uma carta,

o poder da língua que liberta os beijos e
as pálpebras em êxtase,
quando vens descendo em letra redonda e
a perturbar o meu sono.



João Ricardo Lopes in “de a pedra que chora como palavras”
Pintura de Jorge Mayet (“Entre Dos Aguas”), retirada daqui.



Canela

sábado, agosto 16, 2008

Jasmim, Canela e Alecrim



Let us go, then, you and I
When the evening is spread
[out against the sky


T. S. Eliot

Entrou um serafim
no meu jardim

que cheiro a alecrim…

Da rosa carmim
para o jasmim

o canto do clarim
tramp’lim
do arlequim

p’ra mim.




Salette Tavares in “Soneto Pateta III”
Imagem de Zhang Peng, retirada daqui.


Canela

domingo, junho 22, 2008

Porque nem só de música ou poesia…


'Man on a Bridge' © 2007 Bob Dylan

… vive Bob Dylan.

Quem vive da sua música pode esperar até dia 11 de Julho.


Imagem retirada daqui.


Canela

terça-feira, junho 17, 2008

«Sentir é outra questão…»


Não tenho ninguém que me ame.
’Spera lá, tenho; mas é
Difícil ter-se a certeza
Daquilo em que não se crê.

Não é não crer por descrença,
Porque sei: gostam de mim.
É um não crer por feitio
E teimar em ser assim.

Não tenho ninguém que me ame.
Para este poema existir
Tenho por força que ter
Esta mágoa que sentir.

Que pena não ser amado!
Meu perdido coração!
Etcetera, e está acabado
O meu poema pensado.
Sentir é outra questão…


Fernando Pessoa

Pintura de Guy Girard ("Le Château du Double Soleils (Anagraphomorphose de Nietzsche)"), 1993 – retirada do catálogo «O Reverso do Olhar», Coimbra 2008


Canela

domingo, junho 01, 2008

Tudo para Ti


O que se diz do inverno pode dizer-se da juventude
é uma estação abstracta
numa hora qualquer acabamos com frio
o desprovido transporte que por vezes
demasiadas vezes é o daquela verdade

Mas o jogo de alguma coisa
está mais longe ou mais perto

Nem tu sabes por quantos anos ainda
voltarás aos bosques
aos detalhes que ignoravas
ao que resta do primeiro amor
a que todos pensam ter sobrevivido





José Tolentino Mendonça in “Menos para ti”
Pintura de Daniel Hesidence (untitled), retirada daqui


Canela

terça-feira, maio 27, 2008

So few…


The dying need but little, dear,
A glass of water's all,
A flower's unobtrusive face
To punctuate the wall,

A fan, perhaps, a friend’s regret,
And certainty that one
No color in the rainbow
Perceives, when you are gone.



Emily Dickinson in “The Dying need but little, Dear”
Imagem de Pat Goltz (“Agate Swirling Bird”), retirada do sítio MOCA


Canela

domingo, maio 25, 2008

Inferência Dedutiva


A seguir a história do pastor.
O pastor vivia em Goinge, floresta normanda.
Era filho dos senhores da Escânia
hoje conhecedores de ciências.
Aos vinte anos sabia já
distinguir as ervas
curava com esmero os golpes do gado.

Entretinha-se com o queixo.
E todos os Arroios
o conheciam de sol a sol.

Aos vinte e seis anos
casou com Dourada, a rapariga débil.
Aos trinta
viu realizar-se um sonho antigo:
receber os primos no pátio.
Abriu então cervejas
fritou amêndoas
falou pela primeira vez de nostalgia.



Daniel Maia-Pinto Rodrigues in “A história do pastor”
Pintura de Kristin Baker (“Washzert Suisse”), Acrylic on Mylar, (2005), retirada daqui.


Canela

quinta-feira, maio 22, 2008

sábado, maio 03, 2008

Carrossel


Mais um dos excelentes trabalhos do meu afilhado M.
Muitos beijinhos e muitos parabéns meu Amor.


Canela

segunda-feira, abril 28, 2008

«Help me to Write»


Help me to write.
Show me the gates
Where the orders are,
And the cage
My soul stares at,
Where my courage
Roars through the grates.



Malcolm Lowry in "Rilke and Yeats"
Imagem de Jamie Austin Paige (“Seven Dreams”), retirada do sítio MOCA


Canela

domingo, março 02, 2008

Características Partilhadas




Um dos trabalhos de um dos meus afilhados, o M.
Palavras para quê?! É um dos meus excelentes afilhados.
Um beijinho grande meu amor lindo e muitos parabéns


Canela

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Espaços Encurtados

Cruzar olhares será tarefa fácil,
mas não trocar de olhar:

Em foco: um outro ponto, do avesso,
em avesso: outra luz,
outra paisagem

Como de um outro azul,
um brilho outro,
um céu rasgado a nuvens
de outra cor

Cruzar olhares será tarefa breve,
trocar de olhar: uma forma de pôr
em palco de deserto, antes miragem:
agora uma viagem
sem regresso

- que a troca: irreversível:

Uma forma de excesso devolvido
ao espaço inabitado
por igual

Cruzar olhares: uma tarefa curta.
(A outra:
a mais gramatical
forma de amar)




Ana Luísa Amaral in “Gramáticas do olhar”
Pintura de Paula Rego (“Broken Promises”), imagem retirada daqui.


Canela

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Espaço



Despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,

abandono. Despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino ausenta.

Tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. Levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,

os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. Arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.


Francisco José Viegas in “De amor”

Pintura de Matthew Zoll in “Cherris”


Canela

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Punctum crucis



Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.




José Gomes Ferreira in “Porque é que este sonho absurdo”

Pintura de Salvador Dali (The True Painting of the “Isle of the Dead” by Arnold Böcklin at the Hour of the Angelus), 1932.



E das rosas só restaram as pétalas, porque os espinhos já tinham sido removidos um a um.
Nunca me conseguiste ver as mãos, como poderias alcançar o horizonte?!


Canela

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Melancolia


É mais fácil quando o silêncio
transpõe a tua voz.
Mais simples celebrar a tão efémera
certeza de estares vivo.

A música do ar esvai-se nas sombras,
tu sabes que é assim,
que os dias correm céleres, não tentes
perseguir o seu rasto – repara
como em abril as aves são felizes.

Sê como elas: não perguntes nada,
deixa que o sol responda à flor da tarde
e esquece-te do mundo.




Fernando Pinto Amaral in “Poesia Reunida 1990/2000”
Pintura de Pablo Picasso in “Woman Ironing”


Canela

quarta-feira, janeiro 23, 2008

A guardar Sonhos em resumos de Livros


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio – nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.


Maria do Rosário Pedreira in “O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros”

Pintura de Victor Bokarev in “Mysteries. (diptych) part 2”, Watercolour


Canela